
Eu tinha pensado várias vezes em abordar a questão dos criadores de animais, porque a questão não é criar ou não, mas sim, como criar e porque criar.
Hoje a Ana Corina do Mãe de Cachorro publicou um texto excelente sobre essa questão, com o qual eu concordo 100% com as colocações. Então, segue o texto:
Sabe quando você passa em frente à vitrine daquela petshop linda, colorida e que sempre tem filhotes fofos de cães e gatos à venda?
Sabe quando você abre os classificados dos jornais ou acessa sites de vendas de produtos e encontra anúncios e mais anúncios de venda de animais e outros nojentos, do tipo “Compro ninhadas de filhotes de cães e gatos”?
Sabe quando você vai a feiras de filhotes, tão bem montadas, com veterinário presente, com alvará municipal para funcionamento etc.?
Sabe quando você sai para passear com a família e encontra aquele casal simpático, e articulado vendendo filhotes de cães no porta malas do carro ou em caixas e grades sobre a grama?
Então agora olhe bem as fotos e o cartaz que ilustram este post, pois eles mostram apenas um dos inúmeros casos de exploração de animais de estimação, subjugados e tratados como verdadeiras fábricas de dinheiro e tenha absoluta certeza de que por trás de tanta fofurice, de tanta pretensão de estar fazendo um ‘bom negócio’, há crueldade, desrespeito e muiiiito, muito sofrimento animal.
Quer comprar um cão ou gato? Então, antes de mais nada, vá pesquisar sobre a raça para poder saber se a pessoa que a cria realmente a conhece, estuda e aprimora, vá pesquisar depois com muito critério os que se dizem criadores da mesma, escolha o canil com mais critério do que escolheria um médico pra você e gaste dinheiro, muito dinheiro. Porque esta é uma das aplicações mais verdadeiras da frase clássica “Você paga pelo que recebe”.
Criador decente algum vende seus filhotes a preço de banana, criador decente algum anuncia em jornais ou em internet, criador decente algum é “especializado” em várias raças (no máximo em duas e totalmente diferentes entre si), criador decente algum tira seu sustento da venda dos animais sob seus cuidados, criador decente algum vende animais sem entrevistar os compradores e por aí vai.
Se mesmo sabendo de tudo isso você ainda não quer adotar um cão ou gato e prefere comprar um filhote, ok, você tem todo o direito. Agora, por favor, ao menos tenha respeito pelos milhões de animais subjugados mundo afora e escolha um verdadeiro criador, uma pessoa comprometida em manter e preservar as características da raça que cria, características estas que são justamente o motivo maior que levou você a comprar um amigo ao invés de adotar um e salvar uma vida.
Se você acha exagero tanto zelo e se considera que a vida de um animal não vale tanto trabalho, bem, tudo que posso dizer é que ao comprar animais em petshops, clínicas, feiras de filhotes, anúncios de jornais/internet/murais etc., você terminará com um filhote tão “impuro” quanto se tivesse adotado o mais puro dos vira-latas e, além de demonstrar ser uma pessoa sem nenhuma preocupação e sensibilidade social, passará um belo atestado de burrice pura e simples!
Clique aqui para ler sobre uma matéria da ARCA Brasil sobre as petshops que deixaram de vender animais e aumentaram seus lucros ao incentivar a adoção!
Abaixo, algumas questões que você deve levar em conta se realmente decidiu comprar um cão ou gato:
* Onde/como você ficou sabendo deste criador? –> Criadores responsáveis só procriam seus animais quando há uma lista de espera para os filhotes. Eles não publicam anúncios em jornais, internet e muito menos revendem seus filhotes para atravessadores como feiras de animais e petshops. Anunciar em murais públicos? Nem pensar! Anunciar com uma plaquinha no quintal de casa? Muito menos.
* O criador possui alvará de funcionamento? Está registrado no Kennel Clube? Tem todos estes documentos e outros enquadrados e visíveis nas dependências do canil?
* Como é a área onde ficam os animais? Há espaços confortáveis, limpos, com sombra e sol disponíveis etc.?
* Onde ficam os filhotes? Em que condições?
* Com que idade o criador separa os filhotes da mãe? Com que idade começa a entregá-los? –> Muitos criadores sérios não entregam seus filhotes antes dos 90 dias de (três meses). Com isso, a fase mais importante da socialização já passou (da 7ª à 12ª semana de vida). Desculpas para que não sejam propriamente socializados como, “Eles são muito jovens” ou “Eles ainda não estão totalmente vacinados” demonstram falta de interesse e comprometimento, além de preguiça. Uma pessoa responsável não espera os filhotes terminarem os ciclos de vacinas para socializá-los e sempre dará um jeito para trazer pessoas, crianças e outros animais até os filhotes, de maneira a melhor prepará-los para a vida porque sabe da importância deste processo, principalmente para cães de porte grande. Até as 7 semanas de vida o filhote precisa aprender muitas coisas com a mãe e os irmãos, inclusive a não morder com força ao brincar e noções de higiene, portanto, não deveriam ser separados da família biológica antes dos 50 dias de vida.
* Os filhotes são entregues já vacinados (conforme a idade em que são entregues)? –> Nenhum filhote deveria ser vacinado antes da 6a semana de vida (45 dias). Na verdade, os anticorpos que recebem da mãe através da amamentação ficam ativos em seus corpos até entre a 8ªe a 10ª semana de vida e veterinários conscientes já estão aconselhando seus clientes a começar a vacinar os filhotes somente após os 60 dias de vida (sejam comprados, adotados ou ganhados). A vacina contra raiva nunca deveria ser dada antes dos 6 meses de idade e deve ser aplicada sempre com um intervalo de um mês antes e depois de outras vacinas ou da castração.
* Os pais dos filhotes possuem atestados veterinários de estarem livres de doenças genéticas que afetam a raça em questão? –> Por exemplo, atestado de grau de displasia coxo-femural feito após os dois anos de idade, que é quando o veterinário pode realmente atestar se a doença existe ou não e em qual grau.
* Os pais possuem atestado de não possuir nenhuma doença sexualmente transmissível? –> Em caso de atestados de saúde, sempre os exija. Eles devem ser impressos em papel timbrado da clínica responsável pelos exames e conter o carimbo, a assinatura e o número do CRMV do veterinário que fez o laudo e é altamente aconselhável que você ainda verifique a veracidade das informações. Também lembre que nem todo veterinário tem capacitação técnica para fazer todo tipo de exames, principalmente os de imagem.
* Os avós, os pais dos filhotes ou bebês de ninhadas anteriores foram testado para doenças como displasia coxo-femural, displasia de cotovelo, problemas de tireoide etc.?
* Se o criador não realiza os testes, exija uma explicação. –> Não aceite a justificativa de que os animais não foram testados porque nunca tiveram ‘nenhum problema’, até porque, como eles podem saber se não há problemas se não testaram os animais?
* O pai ou a mãe dos filhotes já tiveram sarna demodécica? –> Se a resposta for afirmativa, corra, e rápido! Um criador responsável nunca cruzará um animal sabendo que ele já teve sarna demodécica (localizada ou generalizada). Corra, corra, corra!
* A mãe dos filhotes tem pelo menos 18 meses de vida (1 ano e meio)? Quantas vezes ela já procriou? Com que frequência as crias são tiradas? –> Cadelas não devem ser cruzadas antes do terceiro cio ou dos 18 meses de vida, o que vier primeiro. Também não deveriam mais cruzar após os 7 anos de vida. Um criador responsável não cruza uma fêmea mais de uma vez ao ano. Se o criador tirar cria das cadelas em todos os cios, corra! Ele é só mais um comerciante querendo fazer dinheiro explorando animais.
* Pergunte os motivos pelos quais os pais dos filhotes foram escolhidos para serem cruzados. Quais os traços da raça que os criadores estavam esperando obter nos filhotes? Que tipos de melhorias da raça eles estão estudando e buscando? O criador planeja ficar com algum dos filhotes para ele? Se não, por qual motivo? –> Se a reposta para os haver escolhido for algo como “Porque o macho era de um canil próximo”, “Porque a fêmea é de um amigo meu” ou “Porque eles são adoráveis”, o criador não efetuou nenhum tipo de estudo de linhagens ou fez qualquer tipo de planejamento visando a manutenção das qualidades e a melhoria da raça ao cruzar sua fêmea. Um criador responsável sempre terá uma boa razão para cada cria que tirar, como melhorar aquela linhagem, perpetuar qualidades que já possui em seu plantel ou trazer novas, de um cão com outra linha de pedigree. Um criador decente jamais cruzará seus animais apenas para ter animais para vender!
* Quais as falhas e qualidades dos pais dos filhotes? Como o cruzamento deles serviu para corrigir estas falhas? –> Todos os cães/gatos têm “falhas” quando comparados ao padrão da raça e não existe nenhum exemplar ‘perfeito’. O criador pode ter escolhido fixar um padrão de tamanho, por exemplo, e escolheu um macho com características que podem produzir filhotes com o tamanho desejado ou uma fêmea com um temperamento bastante característico da raça, por exemplo.
* Os pais dos filhotes estão disponíveis para que você possa vê-los e interagir com eles? –> Se um deles não estiver presente (por exemplo, o macho era de outro canil), exija os contatos de seu proprietário para que você possa questioná-lo sobre temperamento e possíveis problemas de saúde e descubra se você pode também visitar o animal que não está presente.
* Que medidas o criador toma para socializar os filhotes? Ele os expõe a crianças? A outros cães? A outros animais? –> Socializar os filhotes desde cedo é muito importante. Cães de raças grandes podem ser separados da mãe na chegada da 8ª semana de vida, mas para cães de raças pequenas é muito importante que os filhotes não sejam separados antes das 12 semanas de vida. A falta de socialização pode causar sérios problemas comportamentais na vida adulta do animal. Se ele for um pinscher, tudo fica menos grave, mas e se for um dogo argentino?
* O criador avalia o temperamento de cada filhote e ajuda você a escolher o bebê que mais combinará com seu perfil e estilo de vida? –> Um filhote tímido não ficará bem em um casa com crianças pequenas, por exemplo. Da mesma maneira, um filhote dominante não pode ir para um dono inexperiente, principalmente se for de raça grande e com temperamento forte. Um criador consciente e realmente preocupado com seus animais fará de tudo para que cada filhote vá para o lar que for mais apropriado a sua personalidade e manterá contato com todos os compradores simplesmente para sempre, demonstrando preocupação sobre como o novo ser que ele colocou no mundo está vivendo.
* O criador receberá o filhote de volta se por alguma razão você não puder ficar mais com ele, mesmo que já seja adulto? –> Um criador responsável sempre se oferecerá para receber de volta os filhotes que produz, não importa a idade que tenham. Ele jamais vai querer que os cães/gatos que vendeu sejam abandonados, doados de maneira irresponsáveis ou que sejam entregues a abrigos e CCZs. Inclusive, haverá uma cláusula no contrato de compra e venda estipulando justamente sobre esta questão: se o comprador não mais puder manter dignamente o animal, ele deve ser devolvido ao criador.
* Quais são os termos do contrato de compra e venda? E as garantias? –> Por exemplo, cães de raças com pré-disposição à displasia coxo-femural podem desenvolver a doença mesmo que seus pais estejam livres dela (daí a importância de ter os exames também de seus avós e bisavós). Um criador sério jamais vai pedir o filhote de volta e sempre oferecerá outro ao comprador, caso uma doença desse tipo apareça no primeiro cão/gato, afinal, a pessoa pagou e não recebeu o prometido da primeira vez. Conheci uma senhora que pagou R$2.500,00 por um filhote de pastor alemão aqui em Floripa e aos três meses de idade ele estava tomado de sarna demodécica. O ‘criador,’ ao invés de conversar com ela, explicar sobre a doença, oferecer bancar o tratamento do cão e lhe dar outro filhote (já que ela queria iniciar um canil de pastores e aquele animal não mais poderia ser procriado) simplesmente disse “Devolva este que te dou outro”, coisa que ela, obviamente, não aceitou.
* Os filhotes são vendidos com registro limitado? –> Filhotes ou cães já adultos vendidos como animais de estimação (não serão usados em exposições nem estão sendo comprados por outros canis competentes) deveriam ser vendidos com contrato de obrigação de castração. Melhor ainda é quando são vendidos já castrados. Um criador que realmente se preocupa com a raça insistirá para que os animais sejam castrados e incluirá esta cláusula no contrato de compra e venda.
Após você procurar as respostas para todas estas questões, pergunte a você mesmo como se sente ao comprar uma vida das mãos desta pessoa. Lembre-se que ao fazê-lo você estará iniciando um longo relacionamento com o criador e com certeza precisará procurá-lo diversas vezes em busca de aconselhamento e informações. Se você se sentir desconfortável, intimidado, pressionado a comprar o animal, ou inseguro de qualquer maneira, continue procurando um criador decente. Não se limite a procurar somente em sua cidade. Viajar para buscar um filhote pode ser a garantia de que você realmente estará comprando aquilo pelo qual está pagando. Afinal, se não é pelas tais “pureza e características da raça”, por que não adotar um cão/gato?
E se você após ler este post está pensando “Realmente, talvez eu só precise de um bom amigo e não de um cão/gato com características tais e tais” ou “Quanto trabalho ’só’ para comprar um peludo!”, por favor, desista da ideia de comprar um animal e adote um dos milhões à espera de um lar!
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